
Abro a Folha hoje, e o que vejo?
“Aécio diz que aliança PSDB-PT em Belo Horizonte será uma consequência natural”
Mostro a reportagem e comento com um ex-professor meu de ciência política e ele muito concisamente me diz: “Coisas do Aecinho”. Comboiando meu instinto, não pude deixar de aporrinha-lo um pouquinho e inquiri se não seriam “Coisas da política”? Ele sorriu e me disse: “Coisas da política mineira”. Fui entregar o jornal na biblioteca e na volta, meu professor ainda estava lá, para fechar a conversa eu exclamei irônico: “coisas de mineiros”. Ele não esperou eu me distanciar muito e quase gritou: “nós somos mineiros”. Foi um diálogo com poucas palavras e muita densidade. Um exemplo típico de uma conversa mineira.
O assombro do jornal paulista diante da declaração do governador mineiro não seria tamanho, se o jornalista fosse mineiro. Para nós mineiros, são claros os objetivos de Aécio Neves. Assim como jogou com os paulistas José Serra e Geraldo Alckmin na última prévia do PSDB para as eleições nacionais, ele joga agora com o PT.
Para relembrar:
Serra novamente desejava se candidatar a presidente. Ele já possuía uma imagem mais conhecida do público do que Alckmin, e corria na frente por isso. Já Alckmin, não era muito conhecido fora de São Paulo; Aécio, por sua vez, corria mais por fora do que bandeirinha de futebol. Nesse panorama, FHC fazia papel de mediador, tendo uma vaga preferência por Serra. Mas Aécio pensou, se eu não posso nesse devido momento reunir forças para concorrer com os dois, vou queimar a imagem deles junto ao eleitorado brasileiro. Ele apoiou nominalmente (e só nominalmente), a candidatura do Alckmin, enquanto negociava apoio logístico com Lula em troca de obras federais a serem feitas nas Minas Gerais. Serra que já tinha a imagem ligada à derrota das eleições anteriores, foi mais desmoralizado com a perda nas prévias do partido e como consolo, foi indicado à prefeitura paulista. Alckmin conseguiu o posto de candidato oficial, sem o apoio e esforço mineiro, perdeu, perdeu feio mesmo as eleições, sendo completamente “queimado”. FHC, distanciou sua imagem do eleitorado, e no final das contas, a imagem e a influência de Aécio Neves cresceu dentro e fora do partido, transformando-se no grande nome para as eleições que virão. Ele jogou os cachorros paulistas contra o jumento Lula do PT, e esse deu dois coices bem dados. Mas nas próximas eleições não haverá o velho jumento, no máximo um potrinho. Além disso, pôde economizar recursos públicos com as obras que passaram a ser feitas pelo governo federal, e assim, estabilizar as contas públicas do Estado e calar a opinião pública.
Acontece, porém, que a última pesquisa CNT/SENSUS para a presidência de 2010, foram obtidos os seguintes resultados:
Primeiro cenário:
Ciro Gomes: 25,8%
Heloísa Helena: 19,1%
Aécio Neves: 16,6%
Dilma Rousseff: 5,4%
Segundo cenário:
José Serra: 38,2%
Ciro Gomes: 18,5%
Heloísa Helena: 12,8%
Dilma Rousseff: 4,5%
Observem que o PT sem Lula é um navio desgovernado. A potrinha Dilma não teria chances, assim como os outros prováveis candidatos do PT, mesmo porque o PT perdeu todos os grandes nomes nos escândalos políticos. Heloísa Helena possui um apelo feminino e da extrema-esquerda, mas como bem sabemos, a extrema-esquerda é pulverizada em pequenos partidos e não possui uma base eleitoral, como por exemplo Ciro Gomes, que possui seu reduto eleitoral em Pernambuco. Aécio Neves, diante desse panorama político, possui uma aceitação de mais de 70% do eleitorado mineiro; possui livre trânsito entre PSDB, que é filiado, e PMDB, partido do falecido Tancredo Neves; tem Alckmin fora da jogada, FHC hibernado, e Serra e Ciro como grandes adversários. Jogando cartas com o PT, e utilizando para isso o prefeito de BH, Fernando Pimentel, que apesar de ser do PT não parece ser, assim como Aécio é do PSDB, Itamar é do PMDB, José de Alencar era do antigo PL, e todos são coringas que não estão ligados ao partido, mas a própria figura política; Aécio consegue a simpatia do PT, mas na verdade ele está chamando a atenção do PSDB para ele. Com as ameaças de sair do PSDB e ir para o PMDB, ele também fez isso.
Agora, Aécio procura uma aliança em Minas entre opostos nacionais, para lubrificar o caminho para a presidência em 2010. Ele com certeza terá o apoio do PMDB, que nunca consegue se definir, e acaba apoiando alguém. Os democratas deverão ter um candidato, porém, seja lá quem for, será sem grande força. Conseguindo uma aliança de primeiro turno com PSDB/PMDB, Aécio estaria facilitando uma aliança/coligação política com PSDB/PMDB/PT/DEMOCRATAS para um segundo turno, com esse jogo duplo. E ainda impediria, de lambuja, que o PT apoiasse o PSB de Ciro em um segundo turno. Isso tudo considerando que nem o PSOL, nem os DEMOCRATAS (antigo PFL), nem o PT consigam ir ao segundo turno, como se configura o tabuleiro hoje.
Aécio sozinho não ganha eleição. Nenhum deles ganham eleição sem Minas, como a história remota prova, e a recente também (Lula não teria ganhado sem a presença de José de Alencar do PL na vice-presidência e trazendo empresários para apoiar Lula).
Portanto, faz sentido esses namoros, esses flertes que Aécio faz de um lado ao outro do quadro político nacional. Uma aliança em Minas, seria o contrato para um possível apoio no segundo turno de 2010.
É a tradição política mineira de volta!
Obs: Particularmente não vejo nenhum deles como governantes decentes, apoiar um deles por ser o menos pior, é aproveitar 50% do meu voto, e jogar ao lixo os 50% restantes. Se não confio, não voto, e over game. Isso vale para tudo em minha vida, no que tange a minha vida em mãos alheias.
Leiam o histórico da polêmica aliança, que procurei agora para vocês:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u378902.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u378248.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u377125.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u372159.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u368057.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u368134.shtml
05 março 2008
A POLÍTICA AS VEZES É MANEIRA; OUTRAS VEZES MINEIRA
Marcadores:
POLÍTICA



















